Sete dias de liberdade: o que faz um preso em ‘saidinha de feriado’

Sete dias de liberdade: o que faz um preso em ‘saidinha de feriado’

22 de outubro de 2019 0 Por Clayton Lima
Preso usa tornozeleira eletrônica para ficar na rua em saidinha

Preso usa tornozeleira eletrônica para ficar na rua em saidinha
Arte/R7

Na manhã da quinta-feira (10), José, 53 anos, atravessou o portão de uma penitenciária no interior paulista e viajou quase 200 quilômetros até entrar no portão da sua casa, em um bairro na periferia de São Paulo.

Ele teve sete dias para desfrutar a liberdade que perdeu em 1998, após ser preso por ter praticado homicídios. José é um dos que tiveram direito à saída temporária do mês de outubro, a famosa saidinha do Dia das Crianças.

“A saidinha é tudo na ressocialização do preso. É quando ele vai reencontrar a família e se reencontrar com a sociedade para se acostumar de novo a viver na rua”, afirma José.

O preso conta que usou os dias que teve na rua para “resolver questões de documentos”, ver as duas filhas, visitar o pai, ficar com a esposa, ir para igreja e “assistir Planeta dos Macacos 2, que ainda não tinha visto”.

“Ah! E também fiz uma coisa, mas não fala para ninguém: consegui andar dentro de casa”, diz sorrindo. São os primeiros passos de José sem o auxílio de uma bengala um ano e um mês depois de sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que paralisou todo seu lado esquerdo.

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A doença é apenas mais um dos vários momentos intensos que passou dentro do presídio. Depois de passar em mais de dez unidades do sistema carcerário paulista, o AVC aconteceu nesta última estadia.

No primeiro momento após sofrer o AVC, ficou sobre uma cadeira de rodas. Recebia atendimento médico na penitenciária, mas acredita que sempre foi muito longe do ideal para sua condição.

Ele atribui a evolução do seu quadro de saúde à força de vontade e à assistência de seus companheiros de prisão. Conseguiu, depois de seis meses, sair da cadeira de rodas e evoluir para uma bengala.

Outra grande dor que passou atrás das grades foi há sete anos, com a morte da mãe. Seu olhar e sua voz mudam quando lembra que não conseguiu estar ao lado da mãe nos últimos dias de vida dela.

Também não viu de perto as filhas entrarem na escola, terminarem o ensino fundamental e médio e ingressarem no ensino superior. A mais velha, aos 24 anos, retomou a faculdade de educação física depois de passar um período com curso trancando. Já a mais nova, com 22 anos, cursa o terceiro ano de psicologia.

“Ela fala que quer atender as crianças, e eu só falo para ela não inventar de querer atender na cadeia”, conta José sobre a filha caçula. Ele diz que em sua casa, “o presídio não é tratado com naturalidade, porque é um lugar que existe apenas para pagar o erro”.

Apesar de acreditar que a única função que o presídio exerce é a punição para quem foge das leis, José lamenta que os direitos das pessoas presas não são respeitados e lamenta quem pede maior rigor. “Eu concordo que as leis são frouxas, mas não para os presos.”

E é com tristeza que ele ouve e assiste às críticas sobre as saidinhas em datas comemorativas. O preso considera importantes as saídas temporárias para o processo de reintegração à sociedade da pessoa que cumpre pena.

“É bom para quem está deixando o sistema [carcerário], para não sair de uma vez ‘descabelado doido’, sem noção para onde vai, sai perdido. Então, na saidinha, é quando ele começa a ver de novo o mundo aqui fora, e se adaptar ao cotidiano normal, para ficar preparado para sair de vez”, diz José.

Preso há mais de 20 anos teve AVC na cadeia e usa bengala

Preso há mais de 20 anos teve AVC na cadeia e usa bengala
Arte/R7

Aos 36 anos, Arthur também valoriza muito o tempo que consegue ficar fora do presídio. Desde seus 18 anos, quando assaltou uma bilheteria do Metrô, ele não sabe o que é desfrutar plenamente a liberdade.

Morador do interior paulista, ele cumpre regime semiaberto em um presídio distante cerca de 250 quilômetros do apartamento onde mora com a esposa, filhos gêmeos, mãe e sogra. 

Durante o período que ficou na rua na saidinha, Arthur praticamente não saiu de casa. “Fiquei só com a família mesmo, aproveitando o tempo que tenho para ficar com meus filhos.” 

Qualquer passo fora da regras, Arthur certamente perderia o benefício da saída temporária. Ele é monitorado o tempo todo pela tornozeleira eletrônica que carrega diariamente.

O aparelho é colocado em todos detentos que trabalham fora da unidade prisional. E Arthur demonstra muito orgulho em dizer que é um preso empregado. “Trabalho de pedreiro para a prefeitura [da cidade onde está detido] e tenho outras quatro profissões caso precisem.” 

Arthur e José voltaram para prisão na última quinta-feira (17). Os dois afirmam que, em momento algum, cogitaram a possibilidade de não retornar ao presídio após o tempo determinado.

Por mais que não tenham certeza de quando estarão totalmente livres, querem sair sem dever nada. Se tudo seguir conforme esperam, no fim do ano novamente eles estarão na rua, em uma nova oportunidade de ficar com a família longe das grades.