Astrônomos descobrem estranhas “bolhas” de ondas de rádio no meio da Via Láctea

Astrônomos descobrem estranhas “bolhas” de ondas de rádio no meio da Via Láctea

11 de setembro de 2019 0 Por Clayton Lima

Uma equipe internacional de astrônomos descobriu um dos maiores fenômenos já observados no centro da Via Láctea: duas “bolhas” gigantes emissoras de ondas de rádio, acima e abaixo da região central da nossa galáxia. Essa foi a primeira grande descoberta do telescópio sul-africano MeerKAT, inaugurado há pouco mais de um ano. Esses objetos se estendem por um total de 1.400 anos-luz, que correspondem a cerca de 5% da distância entre o Sistema Solar e o centro da galáxia.

Essas estruturas em forma de bolhas podem ser observadas porque, dentro delas, os elétrons se movem e produzem ondas de rádio à medida em que são acelerados por campos magnéticos. No estudo publicado na Nature nesta quarta-feira (11), os cientistas mostraram como esse fenômeno, que supera todas as outras estruturas de rádio do nosso centro galáctico, é provavelmente o resultado de uma explosão perto do buraco negro supermassivo da Via Láctea (o Sagittarius A*), algo que teria acontecido há alguns milhões de anos, produzindo uma incrível energia.

Os pesquisadores acreditam que essa explosão foi causada justamente pelo Sagittarius A*, quando ele teria passado por um período de intenso consumo de matéria. Outra explicação seria um evento de “explosão estelar”, ou seja, a formação quase simultânea e a subsequente morte de cerca de 100 grandes estrelas.


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Bolhas de ondas de rádio são descobertas no centro da Via Láctea (Imagem: South African Radio Astronomy Observatory)

Para Oliver Pfuhl, astrônomo do Observatório Europeu do Sul, em Garching, na Alemanha, tanto a explosão de estrelas quanto a atividade do buraco negro podem estar por trás das bolhas, e ambos os eventos poderiam reforçar um ao outro. Inclusive, os pesquisadores sabem de uma explosão estelar que ocorreu na região há cerca de 7 milhões de anos. “É intrigante relacionar as bolhas de rádio a esse evento de formação estelar”, diz Pfuhl.

O Dr. Heywood, autor principal do estudo, disse que “o centro de nossa galáxia é relativamente calmo quando comparado a outras galáxias com buracos negros centrais muito ativos”. Mesmo assim, “o buraco negro central da Via Láctea pode se tornar incomumente ativo, explodindo à medida em que periodicamente devora aglomerados maciços de poeira e gás”. Ou seja, é possível que, em um desses períodos incomuns, o Sagittarius A* tenha desencadeado explosões enormes que resultaram nessas estruturas emissoras de ondas de rádio nunca vistas antes.

Pista para um outro mistério

Essa descoberta pode também resolver outro quebra-cabeças da Via Láctea: a origem dos elétrons necessários para gerar a emissão de rádio de intrigantes filamentos magnetizados — estruturas semelhantes a fios que não são vistas em nenhum outro lugar, exceto no centro galáctico. Não houve até agora uma explicação definitiva sobre sua origem desde que os filamentos foram descobertos, há 35 anos, mas agora há uma pista: é que “quase todos os mais de cem filamentos estão confinados pelas bolhas de rádio” descobertas, de acordo com o co-autor do estudo, Farhad Yusef-Zadeh, da Northwestern University.

As bolhas foram encontradas meio que por acaso. Os pesquisadores que trabalham com o radiotelescópio MeerKAT as descobriram quando criaram uma imagem do centro galáctico para comemorar a inauguração do observatório, e realizavam um “test drive” da instalação. O MeerKAT é um conjunto de 64 antenas de rádio, cada uma com 13,5 metros de diâmetro, localizado em um local remoto na província do Cabo Setentrional.

“Com essa descoberta inesperada, estamos testemunhando na Via Láctea uma nova manifestação de fluxos de matéria e energia em escala de galáxias, fundamentalmente governados pelo buraco negro central’, declarou o co-autor Fernando Camilo, do observatório. A expectativa é que o novo estudo ajude a encontrarmos muito em breve novas respostas sobre os mistérios até então inexplicáveis da Via Láctea e seu buraco negro supermassivo.

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